Eu terminei o texto anterior dizendo que o Obama tinha me surpreendido, e de fato surpreendeu, não nego. Mas acho que minha maior surpresa foi em não apostar que um negro chamado Barack Hussein Obama, de curta carreira política e de uma postura diferente desses velhos belicistas republicanos, iria vencer os estereótipos e o conhecido conservadorismo norte-americano, a ponto de tornar-se o presidente eleito dos EUA. O fracasso da gestão do atual presidente, George W. Bush, que figura como uma espécie de antítese estereotipada do Obama, conseguiu fazer com que grande parte da população almejasse um novo presidente bem diferente daquele que eles já rejeitaram, dando ainda mais força para a campanha do democrata.
Eu diria que nessa última eleição houve sim uma ruptura, algo que parece superficial na verdade é um sintoma de que mudanças profundas estão ocorrendo nas percepções de um sem número de norte-americanos, algo que aponta para os ideais de aceitação da diversidade e de superação dos velhos estereótipos. Mas, com toda humildade de quem ainda é um estudante de História, eu não consegui deixar de ser crítico com o excesso de euforia e com certas colocações que andei lendo e vendo por aí.
Aqui no Brasil, país de maioria cristã, o povo tem um fetiche irritante por “salvadores da pátria”, uma espécie de liderança messiânica que traria finalmente a redenção para o povo. Toda a campanha de Lula para presidente foi pautada nesse tom, e a lembrança de Getúlio como “o pai dos pobres” chega a fazer esquecer sua tendência autoritária. No futebol, a esperança que um salvador da pátria resolva os problemas de um time inteiro também é muito comum, e acontece com a mesma freqüência com que se culpa um único atacante pela má fase de um time, quando, na verdade, muitas vezes o resto do time que não dá o suporte necessário para que o ataque faça seus gols.
O que eu vi nesses últimos tempos foi boa parte das pessoas, e até da imprensa, aclamando Obama como uma espécie de messias da nova era. Isso mesmo. Eu nem comento a edição que o Jornal da Globo fez com imagens de Obama, tocando ao fundo a música “Beautiful day”, do U2. Mas não pude deixar de perceber com um pé atrás o teor de “a esperança venceu o medo” que tomou conta de todo mundo, excedendo os limites do entusiasmo. O Diário de Pernambuco estampou na capa: “Luz na América”. A articulista Marisa Gibson, muito entusiasmada, falou de uma “Grande Revolução” e aclamou os EUA como a democracia mais consolidada do mundo. Eu não vou nem ser chato e dizer que essa democracia consolidada, que nem tem uma eleição tão direta assim, presenciou recentemente um escândalo eleitoral envolvendo Al Gore e George Bush, que acabou da forma mais bizarra possível (o democrata Al Gore venceu Bush por mais de 500 mil votos, mas a Suprema Corte negou o pedido de recontagem dos votos na Flórida, onde havia suspeitas de fraude). Também não vou citar presidentes assassinados, racismo ainda muito presente, várias guerras praticadas ou financiadas e a fomentação de regimes totalitários em toda América Latina. Pois ser democrático de forma autoritária e a qualquer preço também deve estar dentro da cartilha para algumas pessoas, mas não para mim.
Apenas digo que, embora reconheça o valor da eleição do novo presidente americano, e das oportunidades que se abrem, temos que sempre ter em mente que ele é o presidente dos Estados Unidos da América, e como tal, vai defender os interesses de sua nação acima de tudo. Por outro lado, não se pode prever o que vai acontecer com o racismo norte-americano, sem dúvida a eleição de Obama escreve uma linha positiva no que tange à aceitação da diversidade. No entanto, essa condição emancipatória da raça negra ligada à eleição de Barack Obama deve acompanhar os passos do sucesso, ou não, de seu governo. Ou seja, penso que um fracasso estrondoso do governo Obama pode causar efeitos colaterais negativos nessa referida luta emancipatória, já que o julgamento que se faz do "político Obama" por grande parte dos americanos, anda conjugado com o julgamento que se faz do "negro Obama". Esse sistema (negro-Obama-político) que se mostra quase que inseparável por grande parte da população vai ser um totem - para o bem ou para o mal - a ser apontado nos próximos capítulos dessa história do racismo norte-americano.